quinta-feira, 31 de agosto de 2017

ROTEIRO: 7 Restaurantes imperdíveis em Fortaleza

Nada é mais gostoso numa viagem do que descobrir os segredos da cidade, os lugares frequentados por quem mora nela e saber das coisas. Pensando nisso, fizemos uma seleção de 7 restaurantes imperdíveis em Fortaleza. Lugares que vão lhe surpreender pela gastronomia incrível e os ricos sabores para os mais diversos paladares. Você vai descobrir que a capital cearense tem muito mais do que lindas praias e gente hospitaleira para lhe oferecer.

1 - Embora já tenha filiais espalhadas por quase todo o país (e em breve inaugure sua primeira filial em Miami), a principal flagship do grupo Coco Bambu é parada obrigatória para almoço ou jantar, em plena Avenida Beira Mar, o principal corredor turístico de Fortaleza. O “camarão internacional” segue como o prato “best seller”, mas os meus preferidos são, sem dúvida, o espetinho de camarões na crosta de pão de alho e o “Rede de Pescador” – cataplana que vem com postas de peixe, camarões, lulas, mexilhões e lagostas grelhados com azeite extra virgem. Como sobremesa peça uma torta de côco (servida quente com sorvete de creme) ou “o melhor pudim de leite do mundo”. As caipirinhas daqui são deliciosas, e a carta de vinhos também oferece muitas opções! 

Coco Bambu - Av. Beira Mar, 3698 - Beira Mar, Fortaleza - CE, 60165-121 - Fone: (85) 3198-6000

2 - Nenhum restaurante em Fortaleza é tão fiel às técnicas tradicionais da culinária francesa quanto o L’École, um complexo que reúne restaurante e escola de alta gastronomia num casarão lindo do século XIX, comandado pelo chef Albertino Araújo - Grand Diplome pela Le Cordon Bleu. Só o espetáculo da “esfera de chocolate” que se derrete na sua frente banhada com calda quente de chocolate meio amargo já valeria a visita, mas antes disso você precisa descobrir o “tartare de salmão” em cama de maracujá e o delicioso “fettuccini com camarões ao molho quatro queijos”. Outra opção de prato principal é o frango à Cordon Blue, que vem acompanhado de risoto de parmesão empanado. Você vai se surpreender!

L'École - R. Monsenhor Bruno, 819 - Meireles, Fortaleza - CE, 60115-190 - Fone: (85) 3051-3372


3 – Sob o comando do sócio e maître Azevedo – um cearense que tem na bagagem mais de 20 anos no Antiquarius carioca e dois anos no paulistano A Bela Cintra, o Sobreiro é sem dúvida a melhor cozinha portuguesa do Ceará e uma das melhores do Brasil. Com ambiente contemporâneo, serviço impecável e delícias como o “arroz de pato à portuguesa” e o “picadinho carioca”; minha sugestão vai mesmo para o “Bacalhau à Lagareiro”, que sempre chega dourado por fora e suculento por dentro, laminando desde a primeira garfada. Encerre tudo com uma “sericaia” - tradicional sobremesa ibérica servida com fio de mel de abelha ou o clássico tiramisú regado com creme de cassis. São inesquecíveis!

Sobreiro - Rua Manuel Queirós, 511 - Papicu, Fortaleza - CE, 60176-150 - Fone: (85) 3234-0062

4 - Com ambiente cosmopolita e despretensiosamente sofisticado, o L’Ô é um restaurante que facilmente faria sucesso em São Paulo, Nova York ou Londres. Ocupando um prédio antigo, bem próximo ao Centro Cultural Dragão do Mar e a caminho do centro da cidade, tem foco na gastronomia internacional com toques de “fusion food” e, entre as muitas delícias, você tem que provar o “camarão grelhado com molho curry”, servido com nhoque de mandioquinha, recheado com banana da terra e finalizado com chuva de gengibre confit. Termine tudo com a “tuille de amêndoas”, recheada com mouse de banana com sorvete de pipoca caramelizada. Você vai amar! A carta de vinhos oferece ótimas opções.

L'Ô - Av. Pessoa Anta, 217 - Praia de Iracema, Fortaleza - CE, 60060-440 - Fone: (85) 3265-2288

5 - O casamento de um gaúcho com uma mineira apaixonados pelo Ceará fez surgir o Villa Alexandrini, uma cantina discreta, bem intimista e especializada em risotos. O de camarões da Costa Negra com molho rústico de tomates frescos de São Benedito é simplesmente sensacional. E o de carne de sol com parmesão é uma excelente opção para os que preferem carne. Como entrada não deixe de pedir a “bruschetta em pão de coco” e como sobremesa, a panqueca “a la Campelo”, uma delícia que vem recheada com brownie gourmet e creme de avelã com cacau, servidos em piscina de calda quente de chocolate e acompanhado por sorvete de creme com cerejas confitadas. Sugiro um bom champagne brut para acompanhar tudo!

Villa Alexandrini - R. Frederico Borges, 81 - Varjota, Fortaleza - CE, 60175-040 - Fone: (85) 3267-1049


6 - Com ambiente requintado à meia luz, móveis clássicos e decoração pontuada com réplicas de quadros do pintor italiano que dá nome ao restaurante, o Caravaggio tem na sua cascata de lagostas um dos pratos de frutos do mar mais deliciosos da capital cearense. Um certo “fumado” dá a lúdica sensação de que o prato acabou de ser preparado por pescadores nativos, numa fogueira à beira da praia. Um verdadeiro espetáculo para a visão, olfato e paladar! Como prato principal, peça o filet com “foie gras” e encerre com a “Surpresa Caravaggio”, uma sobremesa gelada, ideal para quem gosta de iguarias bem doces com castanhas picadas. A carta de vinhos e champanhe daqui é uma das melhores da cidade. 

Caravaggio - Rua Professor Dias da Rocha, 199 - Meireles, Fortaleza - CE, 60170-310 - Fone: (85) 3242-4703

7 – Situado num dos corredores mais movimentados da cidade, com decoração minimalista pontuada por obras de arte, alguns totens de joias contemporâneas e um grande bar ao centro, o Moana é uma ode à gastronomia de fusão - com toques especiais de vários sabores tipicamente cearenses. O cardápio atual leva assinatura do chef gaúcho Eduardo Sttiger que criou o “Camarão Chico Anysio”, meu prato preferido. Nele, os camarões são flambados na cachaça branca suave, acompanhados por um delicioso nhoque fresco de batata doce e finalizado com um suave molho de queijo gruyére. Como sobremesa, faça uma viagem pelo inesquecível “crème brûlée de rapadura” e finalize com uma dose da cachaça premium cearense Cedro do Líbano. 

Moana - Av. Dom Luís, 55 - Meireles, Fortaleza - CE, 60160-230 - Fone: (85) 3181-7001

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

MUSA: Glauce Moretti - Das piruetas do circo para as telas

Nossa musa de agosto, Glauce Moretti, chegou toda intrépida. Começando pela ousadia de topar participar desta deliciosa aventura, posando para nosso ensaio no meio da rua, entre calçadas e areias do bucólico bairro da Urca, no Rio de Janeiro. Local onde existiu o lendário Cassino da Urca e hoje funciona o IED (Instituto Europeu de Design) - uma escola internacional que une educação, pesquisa e mercado -, enfocando diversas áreas do design e em gestão de disciplinas criativas. Não poderia haver cenário e backstage mais inspirador para preparação de nossa musa. A produção chamou atenção de quem passava pela rua, que paravam curiosos em meio a tecidos voando, cordas e trapézio, para saber o que estava acontecendo naquele vai e vem de gente carregando coisas para lá e pra cá e causando alvoroço.

Mas nada disto seria possível se não contássemos com o apoio do ator convidado, André Lyma, que participou do ensaio dando total suporte à atriz nas pegadas mais importantes e acrobacias em dupla. André vem de uma formação teatral clássica, como Commedia Dell'arte, com o espanhol Dario Gallo, dentre outros cursos nas artes cênicas. Aprendeu Street Dance, Hip Hop, Jazz e Circo Fit, fez cursos importantes para TV e cinema, Publicidade, Improvisação, Expressão Corporal. 

Já nossa musa Glauce, também uma apaixonada pelas artes cênicas, dança e também pela acrobacia circense, prática que ela considera muito agregadora ao ofício do ator. Aqui ela nos conta um pouco da sua vida, carreira e sua estreia no cinema no filme “Amélio, o homem de Verdade”, onde interpreta Zefinha, uma mulher simples e divertida.




Glauce quando foi que você se descobriu atriz? Qual foi sua formação nas artes cênicas? Desde a minha infância, sempre gostei de tudo que era ligado à arte. Assistia aos filmes, musicais pela televisão e já me imaginava fazendo parte desse mundo. Comecei fazendo aulas de dança (de todas as modalidades) e, em seguida, fiz o curso Tablado concomitante com o curso de Letras (primeira faculdade). 

Como foi que surgiu sua primeira experiência na carreira artística? A primeira e fascinante experiência foi na minissérie “A, E, I, O, Urca”, como bailarina do Cassino da Urca, da TV Globo, me lembro quando fui chamada para o teste ao lado de várias atrizes, e fui selecionada pelo diretor Maurício Sherman. Depois disto fiz participações em vários outros produtos da casa.

Além das artes, você é dentista e professora, como é conciliar todas estas atividades? O Brasil, infelizmente não dá o valor necessário aos artistas, em geral. Tive que optar, em um momento na minha vida, pela segurança profissional e, escolhi algo, que pudesse ser conciliável com a carreira de atriz; quando também concluí a faculdade de Odontologia (segunda graduação).
De todas as funções que você exerce na vida, em qual destas atividades você se sente mais realizada? Sem sombra de dúvida com a carreira de atriz. É minha melhor terapia, está na minha essência.





Qual sua vivência em acrobacia aérea, e artes circenses? Na verdade o meu maior foco nessa área sempre foi a dança. O circo surgiu na minha vida por acaso, em uma aula experimental com os maravilhosos Elde Oliveira e Georgius, que me fizeram despertar para mais essa paixão, que é um verdadeiro espetáculo.

O Circo exerce um certo fascínio ao espectador, e para o artista é uma paixão, um exercício que ajuda no ofício do ator? Como funciona? O circo é um desafio fascinante, que, com certeza, ajuda na concentração, consciência corporal, disciplina e a estar sempre interagindo com o público. 

Como é sua relação com a família, eles apoiam sua carreira artística? Desde criança, minha família sempre apoiou a minha escolha e sempre esteve presente nos mais variados eventos. Inclusive, quando participei da série do “Cassino da Urca”, eu era menor e precisei da autorização deles; onde fui prontamente apoiada.




A carreira artística é muito competitiva, é preciso ter muita perseverança e foco, o que te inspira a seguir em frente? É algo que faz parte da minha essência; é algo que me move, me alimenta; é uma verdadeira terapia em minha vida. Temos que fazer aquilo que nos faz bem; portanto, enquanto eu viver, estarei regando esse sonho. 

Qual o ingrediente fundamental na personalidade de um homem para te conquistar? Ser sincero, verdadeiro, e principalmente respeitar as minhas escolhas, mesmo que não aprecie. Essa pessoa já me encontrou: meu marido.
O que é que te deixa mais feliz? Estar ao lado de pessoas que amamos: família, amigos; e ver meu filho se tornar uma pessoa do bem.

Você andou um tempo afastada das artes, e agora está de volta, e no cinema em um dos papéis de destaque no filme “Amélio, o homem de Verdade”, conta como aconteceu o convite? Participei de um workshop em São Paulo do diretor e roteirista Luís Antônio Pereira, autor de diversos filmes incríveis, incluindo "Jogo de Xadrez", com Priscila Fantin. O mesmo apreciou a minha atuação e me convidou posteriormente para fazer parte do elenco com a personagem divertidíssima "Zefinha", com direção e roteiro impecáveis de Luís Antônio Pereira.

Ainda sobre o filme “Amélio”, o projeto vai se desdobrar em uma série para a TV fechada BOX Brasil é isso? Para quando está prevista a estreia? Sim, a série será rodada em 2018. A previsão de estreia, para o mesmo ano.

Conte aos leitores da MENSCH como foi receber o convite para ser a nossa musa de agosto? Recebi o convite com muito entusiasmo! A revista é super bem elaborada, com matérias interessantes e com detalhes minuciosamente bem pensados, para agradar o leitor. Aproveito para agradecer o convite! Adorei participar!




Fotos Marcio Romano e Uine Monteiro
Direção criativa e styling Marcia Dornelles
Beleza Zé Reinaldo

AGRADECIMENTOS
- Ied Rio - Av. João Luis Alves, 13, Urca – Tel: 21 3683 3786
- Suporte Elde Oliveira e Georgius
- Participação Especial André Lyma
- Casa Pinto Tecidos 

Glauce Veste - Look Lira: maiô Bum Bum, brinco Aullore; Look Trapézio: body Nidas, brinco Pk Folheados e Semijóias; Look Escada: maiô Bana Bana, brincos Estela Geromini; Look Dupla 1: ela - hot Paints Bum Bum, ele – Oliv; Look Dupla 2: ela - maiô Amábilis, ele – Oliv

terça-feira, 29 de agosto de 2017

ESTILO: Inverno fashion com o modelo Arthur Sales


Quem pensa que só as grandes tops brasileiras ganham o mundo com suas campanhas publicitárias e editoriais de moda está bem errado. O modelo pernambucano Arthur Sales meio que de surpresa viu sua vida mudar de uma hora para outra, largando o curso de direito e desbravando as fronteiras do universo da moda em diversos países. “O início foi bem inesperado, sempre tive o desejo de viajar o mundo, conhecer novas culturas, culinárias dos lugares, idiomas desde cedo. Com 16 anos tive a oportunidade de começar a trabalhar em Recife, como modelo, paralelamente aos estudos, foram surgindo propostas para alguns lugares e agências do mundo, porém era muito cedo e junto com minha família e minha agente na época, decidimos adiar até eu entrar na faculdade. Nunca foi um sonho me tornar modelo, a profissão simplesmente me escolheu, aí passei a me dedicar 100% para atingir objetivos na carreira internacional, emagreci 10 kg, troquei alimentação e treinos”, comentou Arthur. 

Arthur participou de campanhas de grifes como Giorgio Armani e Hugo Boss, chegando a ser um dos maiores modelos masculinos do Brasil em faturamento e fama. Segundo Arthur: “Com o passar do tempo os trabalhos foram melhorando, e a L´officiel Paris, foi o divisor de águas na minha carreira, fechamos uma exclusividade de 200 páginas e a capa, fotografei em estúdio e externas no calor de Miami, na neve em Paris e no deserto e montanhas do Marrocos.” Hoje Arthur já procura outros desafios, dessa vez como ator. Pelo jeito que a coisa vai esse rapaz vai longe.







Fotos Renato Filho 
Styling Endora Ritz 
Produção de moda Ivonalda Gaião 
Beleza Laércio AZ 
Tratamento @wretouchingstudio

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

DIÁRIO DE BORDO: China para os fortes e seus vários destinos

Viajar pela China é experiência bruta e está longe de ser um passeio agradável. Começamos a nossa viagem por Xangai. Na China conhecemos alguns dos locais mais marcantes da viagem, mas também encaramos os dias mais cansativos. Essa foi minha segunda vez na China, mas a primeira vez em Xangai e no norte do país. Nesse roteiro planejamos três noites em Xangai, duas em Pingyao e duas em Xian em um ritmo bem mais acelerado do que o restante da viagem. Optamos por aproveitar ao máximo nossa semana na China para conhecer vários destinos, e terminamos a semana destroçados mudando o roteiro para tirar cinco dias de descanso em Bali. 

Apesar de ser um país fascinante, a China, em menor intensidade, me lembra a Índia e o Egito. Em todos esses destinos existem grandes tesouros da humanidade e experiências de viagem memoráveis, mas o caminho passa por ruas lotadas, cidades poluídas, banheiros imundos e a sensação de ter que estar sempre alerta para desviar dos oportunistas que perseguem turistas na rua. Também contribui a dificuldade de comunicação tanto com os locais que não falam inglês quanto pela internet, que tem vários sites, incluindo Google e Facebook, bloqueados pelo governo Chinês.


PASSADO E FUTURO EM XANGAI

Em Xangai a sensação é um pouco diferente. Tivemos o azar de estar lá justamente em um feriado nacional e enfrentamos multidões de turistas chineses pelas ruas da cidade. Apesar disso, Xangai é uma cidade moderna e bem aprazível para padrões Chineses. Aqui consegui até manter minha rotina de corridas matinais pelo famoso Bund, o calçadão que beira o rio e tem vista para o skyline de prédios modernos do bairro de Pudong. Enquanto os edifícios modernos brilham do lado de lá do rio, na avenida do Bund estão alguns dos edifícios históricos mais interessantes da cidade. A maioria parece ter saídos de Londres ou Chicago. Hoje são sedes de bancos, prédios do governo e hotéis de luxo, mas no passado já foram as sedes das empresas que movimentavam o porto de Xangai, que ficava bem ali no Bund. Também me impressionou na cidade o centro histórico com belos edifícios, praças e templos com centenas de anos de história. Xangai também é um dos melhores lugares para comer na China e a variedade de comidas de rua e restaurantes no estilo bandejão já possibilita uma boa experiência da gastronomia local. Para paladares mais refinados, existe em Xangai uma dezena de excelentes restaurantes; muitos deles no alto de prédios com vista para o Bund. Difícil aqui é evitar a muvuca. Caminhar pelo calçadão de Pudong à noite é quase como encarar Copacabana no ano novo. Com turistas vindos do interior da China, ocidentais chamam a atenção e o assédio de chineses querendo tirar fotos conosco faria a alegria de qualquer ex-Big Brother. Tiramos fotos com dezenas de adolescentes e senhoras. Todas sempre sorridentes, se aproximavam com muito respeito elogiando os cabelos cacheados da Ana. Os homens tiram fotos de longe e raramente se aproximam. 





A HISTÓRICA PINGYAO


Nossa próxima parada na China foi a pitoresca cidade de Pingyao. Patrimônio da humanidade, a cidade sobreviveu quase intacta à modernização de gosto duvidoso promovida pelo governo comunista após a revolução. Pingyao ainda conserva sua muralha medieval e mais de 4 mil casas que datam da dinastia Qing do século XVII. Para chegar lá tínhamos que voar duas horas e meia até uma cidade chamada Taiyuan e de lá pegar um trem. No trajeto foram fortes emoções. Fomos de metrô até o aeroporto doméstico de Xangai, e, sem informação do terminal de embarque, descemos no terminal errado. Até chegarmos no local certo de embarque faltavam apenas 35 minutos para a saída do nosso voo. Fomos os últimos a embarcar com o check in encerrando. Na correria, não consegui sacar dinheiro e fomos para o Norte com os poucos Yuan que sobravam no meu bolso. Chegando ao aeroporto de Taiyuan fomos assediados por pseudo taxistas e guias que queriam nos levar de carro direto a Pingyao. No balcão de informações turísticas, com a ajuda das simpáticas atendentes, que não falavam inglês, fomos colocados em um ônibus rumo à estação de trem. Taiyuan é exemplo vivo do milagre econômico da China. Estão construindo por lá centenas de torres residenciais de mais de trinta andares com o exato mesmo projeto arquitetônico. Algumas levam nomes chamativos em inglês como “The Elegance”, mas estão sendo construídas em frente a fábricas fumacentas. A cidade de Taiyuan parecia um enorme canteiro de obras e a estação de trens recém-inaugurada é impressionante. Apesar de ultramoderna, não tem caixas eletrônicos ligados à rede internacional. Ficamos aliviados quando descobrimos que o preço de duas passagens para Pingyao daria justo com os trocados que me restavam no bolso, deixando uma sobra para um taxi bem negociado em nossa chegada. Comprar a passagem foi outra função. As máquinas modernas de venda de bilhete têm opção de venda em inglês, mas ainda é impossível comprar uma passagem sem passar uma identidade chinesa pelo escâner da máquina. Éramos os únicos estrangeiros naquela estação imensa e nos custou até encontrar um guichê aberto com um humano disposto a vender uma passagem. Depois de tanta turbulência fomos agraciados com a descoberta de que em 2014 a China construiu uma nova linha de trens bala na região e o tempo de viagem à Pingyao hoje é apenas 40 minutos. 


Nossa chegada à Pingyao não foi nada glamorosa. A nova estação foi construída em uma região rural cercada de plantações de milho e fábricas sinistras, com suas chaminés expelindo nuvens de fumaça preta. Barganhamos o taxi e seguimos para a cidade antiga. Fomos deixados em um dos portões de onde teríamos que caminhar até a nossa pousada. Tínhamos reservado um hotel tradicional em um dos casarões antigos e eu já previa que encontra-lo no labirinto de vielas não seria tarefa fácil. Mesmo perdidos na multidão, ficamos felizes com o visual com que nos deparamos na primeira rua dentro da cidade murada. Lanternas vermelhas no estilo chinês antigo iluminavam casarões históricos em ruas lotadas de barracas com vendedores de rua. Era a imagem da China tradicional que eu sonhava em conhecer. Decidi entrar na primeira pousada e mostrar a nossa reserva com o nome do hotel em mandarim. Um rapaz simpático com sua filha pequena, mesmo não falando inglês, nos levou até a porta da pousada que ficava duas vielas depois. 



A pousada, apesar de bem simples, ficava em um casarão antigo maravilhoso com várias pequenas casinhas no jardim que serviam de quartos. Ao entrar em nosso quarto vimos que a experiência seria realmente autêntica. A cama de madeira tradicional tinha um colchão bem fino e duro de palha, e o quarto inteiro não parecia ter mais que 6 metros quadrados. Tínhamos um banheiro privativo com uma “luxuosa” privada ocidental. O espaço no banheiro era reduzido mas ficamos felizes com um banho antes de sair para a rua. Passamos dois dias intensos em Pingyao desbravando vielas e casarões. No dia seguinte consegui finalmente sacar dinheiro no único caixa eletrônico da cidade que estava conectado à rede internacional. Mesmo com dólares e euros, trocar o dinheiro por moeda local é tarefa difícil. O governo regula todas as atividades de cambio, então não existem casas de câmbio fora dos principais centros e aeroportos. Com dinheiro no bolso, nos esbaldamos com a deliciosa comida local. A especialidade é o Pingyao Beef, que combina pedaços de carne bovina cozidos em um molho doce com legumes. Outro ponto curioso de Pingyao é que aqui foram fundados os primeiros bancos da China há mais de duzentos anos. A riqueza arquitetônica e a belíssima muralha valem uma visita de pelo menos dois dias. 

OS GUERREIROS DE XIAN


Nosso próximo e último destino na China seria Xian, onde pretendíamos visitar os famosos guerreiros de Terracota. Xian, além de ter os guerreiros, é uma cidade muito interessante para experimentar de forma mais autêntica a vida na China. Apesar de ainda ter uma muralha preservada que circunda o centro, Xian hoje é mais uma grande metrópole da China. Muito do patrimônio histórico foi destruído na modernização da cidade, mas ainda há muita riqueza cultural. Uma das principais atrações da cidade é o mercado da comunidade chinesa muçulmana que vive em Xian desde o tempo da rota da seda. Visitar o mercado noturno que acontece na rua principal do bairro foi uma das experiências mais caóticas e divertidas que tivemos em toda a viagem. A comida é completamente diferente do resto da China. Comemos batatas assadas com uma dúzia de especiarias e um delicioso sanduiche de cordeiro com molho não identificado. O cordeiro era cozido em caldeirões enormes no meio da rua. Também é tradicional do bairro tomar uma sopa com um pão que parece uma versão mais rustica do pão pita libanês. Bem massudo, ele deve ser picado pelo próprio cliente e colocado dentro de uma cumbuca onde a sopa é servida. Sugiro seguir as instruções do vendedor e deixar o pão bem picadinho. Se ele achar que você fez o trabalho mal feito não vai titubear em meter a mão no seu pão e demonstrar como deve ser feito. Os padrões de higiene na China são bem diferentes do nosso.

No dia seguinte fomos conhecer os famosos guerreiros de Terracota. A peregrinação até o mausoléu do imperador, que fica em uma região remota da periferia, incluía decifrar dois ônibus. O primeiro até que foi fácil, já o segundo saía da estação central de Xian, que para variar, era um caos humano difícil de navegar. Chegamos sãos e salvos no mausoléu perto do meio dia. Apesar da região próxima estar repleta de fábricas fedorentas, o governo fez um bom trabalho transformando uma área bem grande ao redor das escavações em parque nacional. A estrutura do parque é excelente. Felizmente o feriado chinês já tinha acabado e conseguimos visitar tudo sem grandes apertos. O complexo possui três tumbas, sendo a primeira a mais impressionante com milhares de guerreiros em tamanho natural, cada um com uma feição e detalhes da vestimenta única. Sem dúvidas a visita vale todo o esforço. 




Outro passeio bacana na cidade é alugar uma bicicleta para dar a volta completa em torno da enorme muralha que circunda o centro. A vista lá de cima é incrível e as calçadas largas tornam o passeio a pé ou de bicicleta bem tranquilo. Terminamos nossa semana na China apreciando o último pôr do sol na névoa de poluição do alto da muralha de Xian. Estávamos exaustos, mas felizes com a experiência. Visitar a China é para os fortes, e minha maior recomendação é não tentar desbravar todas as principais cidades desse enorme país em uma só viagem. 





DICA IMPORTANTE: Vale fazer o roteiro com mais calma intercalando alguns pontos de descanso e investir um pouco mais em hospedagem, principalmente na localização, para evitar grandes deslocamentos em transporte público. Voltar para um quarto fresco e confortável é sempre acolhedor. 

sábado, 26 de agosto de 2017

CAPA: Marcos Pitombo saindo da zona de conforto e fazendo arte

O ator Marcos Pitombo é um ótimo exemplo de que sair de sua zona de conforto pode resultar em experiências de sucesso que podem definir quem somos. O cara largou tudo em seu início de carreira e foi morar na China onde trabalhou como modelo. Já de volta ao Brasil, cursando Odontologia, se arriscou no que amava fazer e foi encarar o teatro. Tempos depois fazia sua estreia na TV e de lá não parou mais. Teatro, novelas e em breve cinema. E a realização de que arriscar fez com que ele encontrasse sua realização profissional. Conheça um pouco da trajetória desse determinado (e de bem com a vida) ator, que ainda vai dar muito o que falar. 

Marcos você parece ser um cara tranquilão e de bem com a vida. É isso mesmo? Acredito que sim. Tento levar uma vida baseada em hábitos saudáveis, estar com os amigos e enxergar a vida com leveza. Claro que os problemas existem só que a melhor forma de encará-los é sempre com otimismo, bom humor e sorriso no rosto, ao invés de amargura ou derrotismo. 


O que te tira do rumo? Te desestabiliza. Falta de educação, arrogância e falta de caráter de algumas pessoas já me desestabilizaram bastante ao longo da vida, mas hoje entendo que as pessoas tem as suas limitações, e a maturidade me faz responder com amor àquele que te ataca com desamor. É um exercício constante mas é também libertador. Já a nossa política atualmente tem me tirado bastante do rumo, estamos vivendo tempos complicados mas ainda acredito que o povo, unido, vai encontrar uma saída. 

Morar um bom tempo na Ásia em geral foi uma forma de te tirar da zona de conforto também (fora trabalho)? Sim, foi um grande desafio profissional e acima de tudo, pessoal. Mudar pra outro continente, de hábitos completamente diferentes, uma língua dificílima foi assustador no início, mas me provou que sim, era possível ser feliz fora da zona de conforto. Não foi fácil, mas faria tudo de novo.

Que lembranças traz dessa época e o que foi mais difícil? A poluição na China é assustadora, tinham dias que não se conseguia ver o céu por conta da nuvem de fumaça. Fazer mercado também era uma aventura porque como você vai comprar algo que você não consegue ler pela embalagem o que tem dentro? (risos) E pedir informação na rua também era uma missão porque naquela época era difícil encontrar um chinês adulto que falasse inglês, e então na maioria das vezes eu tinha que pedir informação a adolescentes e crianças, pois a chance de conseguir me comunicar era maior. Mas acho que a saudade de casa, família, dos amigos era o que mais me incomodava.

Depois dessa experiência você entrou na Globo para fazer Malhação (2006) e depois engatou vários trabalhos seguidos na Record. Como foi esse início como ator? Na verdade eu fazia teatro amador em paralelo à faculdade de Odonto na UFRJ, e era uma loucura pois nos dias de semana a minha rotina era a clínica e nos fins de semana, o teatro. Com o convite para a “Malhação” tive que fazer a escolha do que realmente queria fazer da minha vida e foi um período bem complicado pois abrir mão de uma carreira estável na Odonto por um sonho não parecia a atitude mais sensata, mas segui meu coração, e a sequência de trabalhos bem sucedidos aos poucos me fizeram enxergar que estava no caminho certo.

A temporada na Record serviu de escola para o ator que você é hoje? Que maiores desafios encontrou pelo caminho? Acredito que o ator, além da sua formação acadêmica (que é fundamental) também cresce muito com seus trabalhos, suas experiências profissionais e os encontros com os parceiros de trabalho. Fui sempre muito feliz nas produções em que trabalhei, pude estar em contato com atores, atrizes e diretores que sempre admirei e vê-los no dia a dia do set de gravação era um aprendizado constante. 






Seu mais recente trabalho foi na novela “Haja Coração”, na Globo, ano passado. Como foi participar desse trabalho e voltar a Globo? Foi um trabalho de muita felicidade, era uma novela divertida, com uma coxia animada, um texto leve do Daniel Ortiz, uma direção super generosa do Fred Mayrink e sua equipe e com uma parceira de cena que levei pra vida como amiga que foi a Sabrina Petraglia. Acabou que a gente tinha tanto prazer em ir gravar que acho que isso passou para os personagens e nossa história acabou sendo um grande sucesso, o que é o sonho de todo artista. E como na história a gente falava de um amor entre em um jovem e uma portadora de deficiência física, me permitiu uma troca com pessoas incríveis, conhecer histórias lindas de vida e superação e momentos de muita alegria. 

Da época que trabalhou como modelo o que levou para sua vida? É um cara vaidoso? Sempre cuidei da saúde e tive hábitos saudáveis e isso veio da minha mãe (Eliane Magalhães) que é professora de educação física. Sempre soube da importância de uma boa alimentação, de como uma atividade física faz bem não só pro corpo como para cabeça. E acaba que ter uma vida disciplinada não é um sacrifício e sim uma escolha leve de vida. Acho que dá vida de modelo veio o gosto de roupas com um bom corte e peças que tenham mais atitude e que mostrem um pouco da minha personalidade. Acredito que moda é também uma forma de você se comunicar com o mundo. 

Em relação às mulheres até onde vai o limite da vaidade? Eu acho que ninguém pode ficar refém da vaidade. A mulher querer ficar bonita pra si e se sentir bem é algo extremamente legítimo e nada fútil. Quer tingir o cabelo? Ou usar uma roupa mais impactante, e até mesmo realizar uma reparação estética, por que não?! São artifícios que hoje em dia temos e que estão a alcance de todos, e se for possível fazer, sou extremamente a favor. Mas acho que a ditadura da beleza, uma cobrança por estar impecável, querer encontrar o elixir da juventude é uma briga perdida e uma grande besteira, e que leva a um desajuste emocional, uma sensação de fracasso. Acho que q melhor dica de beleza e se sentir bem na pele que a gente tem e um sorriso no rosto. Aí a gente fica bem mais bonito e radiante e o mundo sorri pra gente também.




Que qualidades mais admira em uma mulher? E em você? O bom humor, um bom papo e leveza na vida. Com essas qualidades os tempos passam de forma mais prazerosa e os momentos sempre acabam ficando na memória da melhor forma. E acho essas são as minhas grandes qualidades também.

O que curte fazer para relaxar? Estar com os amigos, com meus cachorros, fazer atividade física e também me jogar no sofá para ficar vendo seriado. 

Sempre em forma, como cuida do corpo? Qual sua rotina? Tento ter uma alimentação equilibrada, prefiro sempre os alimentos orgânicos, como pouquíssima carne vermelha (só uma vez por semana) e tento praticar exercícios regularmente. Gosto de me consultar com nutrólogos e ter acompanhamento de profissionais da áreas de educação física para ter uma melhor rendimento nas minhas atividades. E procuro sempre fazer uma atividade nova, tentar fazer algo que nunca fiz, me desafiar em aprender algo que até então não domino. Ultimamente tenho me aventurando na capoeira e tem sido uma experiência muito exaustiva, revigorante é muito prazerosa. 

Como foi participar desse ensaio que envolve boas pinceladas de tintas coloridas? Gosto de ensaios fotográficos que saem do óbvio e nesse caso além da questão artística da pintura, tinha muita atitude e personalidade na hora das fotos. (Que é uma marca do Beto Gatti, um fotógrafo que sempre admirei) Foi um dia bem divertido e a cada foto ficava mais feliz com resultado.

O que vem por aí nos projetos de trabalho? Agora no fim do ano filmo um longa-metragem intitulado "A cabeça de Gumercino Saraiva" que é um filme de época passado ao final da Revolução gaúcha de 1893 e que será rodado todo na região dos pampas do Rio grande do sul. E no ano que vem já estou comprometido com 2 produções de teatro. 


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

ENSAIO: Segundo capítulo de "Defining Moments", da Ermenegildo Zegna, reúne o ator Robert de Niro e coreógrafo e bailarino francês Benjamin Millepied em Nova York

A grife italiana Ermenegildo Zegna segue com o segundo capítulo (veja o primeiro aqui) de sua campanha publicitária global 'Defining Moments', estrelada por Robert De Niro e coreógrafo e bailarino francês Benjamin Millepied. Reconhecido como um dos maiores atores do nosso tempo, Robert De Niro não precisa de nenhuma apresentação. Benjamin Millepied, por outro lado, passou a maior parte de sua vida fora dos holofotes de Hollywood. Depois de uma carreira muito bem sucedida em alguns dos balés mais prestigiados do mundo, ele fundou o LA Dance Project e foi Diretor de Dança no Paris Opera Ballet.

Millepied também recebeu aclamação internacional por sua coreografia em The Black Swan, onde também teve um papel de liderança no filme, interpretando o príncipe junto ao personagem de Natalie Portman. Assim como McCaul Lombardi, protagonista da primeira parte da campanha de Defining Moments, Millepied e De Niro possuem uma afinidade que transcende a idade e a herança. Embora eles representem duas diferentes gerações, ambos compartilham do mesmo amor por Nova York, uma propensão natural para a elegância e uma força interior que permeia seus personagens.






Juntos na cidade que nunca dorme, Alessandro Sartori, Diretor Artístico de Ermenegildo Zegna e o cineasta Francesco Carrozzini iniciaram um diálogo com De Niro e Millepied. Os dois artistas compartilham suas paixões, valores e momentos que agora são vistos como marcos de suas carreiras. De Niro e Millepied participam de uma conversa íntima sobre vida, expressão artística e momentos únicos definidores. De Niro discute seu amor por uma cidade diferente de qualquer outra; Uma cidade onde a liberdade reina e os sonhos são realizados. Millepied concorda naturalmente. Ele veio para Nova York para seguir seus sonhos e ainda é influenciado por sua rica cultura e vibrante sensação de oportunidade.

Em meio a uma interação perspicaz de ideias e experiências, De Niro e Millepied contemplam as exigências de seus respectivos negócios, as diferenças marcantes entre eles e o poder de espontaneidade criativa. Apresentado pela primeira vez para a temporada Primavera-Verão 2017, a campanha Outono-Inverno de 2017 Representa uma evolução da iniciativa do momento de definição aclamada, que reflete a emoção e a voz centrada na comunidade que Ermenegildo Zegna autenticou através da declaração da marca.

Juntamente com esta segunda fase da campanha global, a plataforma Defining Moments on Zegna.com apresentará conversas de indivíduos bem sucedidos de diferentes idades, culturais fundos, de diferentes partes do mundo.


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

ARTE: Aecio Sarti a o “Céu de Querubins”

A melhor maneira de encontrar Aecio Sarti é em seu ateliê em uma das ruas estreitas, repletas de galerias de arte, ateliês e estúdios de artistas em Paraty, RJ. Suas obras vão de figuras de pescoços longos a la Modigliani a querubins pintados a óleo e carvão sobre lonas de caminhão que exercem um forte apelo naqueles que dão de olhos com essas obras. Aecio Sarti é um sergipano de Aracaju que se radicou em Paraty depois de ter vivido em vários lugares pelo Brasil e estudado arte no The Art Institute of Colorado, Estados Unidos. Suas obras contam com a presença constante da figura humana, ricas em detalhes, e, algumas vezes, retratada pela temática do duplo. Nos dias atuais, suas obras estão espalhadas pelo mundo, em paredes de amantes das artes.

Indo bem para o início como a arte e a pintura surgiram na sua vida? Vim de uma família de sete crianças criadas pela minha mãe, e desde cedo vi que eu tinha um olhar diferente dos meus irmãos. Eu acompanhava muito a forma poética com que minha mãe encarava a vida e o modo com que ela coloria seus dias, apesar da pobreza. A diferença é que eu transformava meus sonhos e minhas histórias em desenhos e pinturas. Aos 14 anos, comecei a pintar sobre madeira e vender esses trabalhos nas feiras da cidade. Acabei percebendo que as pessoas gostavam e entendi que eu queria ser artista.


Conta um pouco da sua trajetória... Sempre morou em Paraty ou a arte e estilo de vida te levaram para lá? Faz 12 anos que moro em Paraty. É muito pouco para o tanto que a cidade me ofereceu e por tudo que conquistei nesse lugar. Minha carreira e minha vida podem ser percebidas de duas maneiras: antes e depois da chegada a Paraty. Dos 14 aos 19 anos, ainda autodidata, pintava e vendia minhas obras. Aos 19 anos, de uma só vez, consegui vender todos os trabalhos que tinha naquele momento. Peguei o dinheiro e me mudei para os Estados Unidos onde estudei desenho publicitário. Voltando ao Brasil, em 1980, parei de pintar por conta da crise no país e da tristeza por ter regressado. Entrei em uma profunda depressão e por vinte anos fiquei longe da pintura. Procurei outro trabalho e assim foi, até que passei a sentir falta de muita coisa na minha vida. Tinha a necessidade de viver o tempo de menino que perdi por conta da dureza da vida. Então, em meados dos anos 2000 comecei a pintar “sonhos de criança”. Eram figuras muito coloridas, arredondadas, sempre representando histórias infantis e coisas que me agradavam e me traziam a saudade de um tempo que eu não tinha vivido adequadamente quando criança. Essas obras são visualmente muito diferentes dos trabalhos que pinto atualmente, mas marcam a época da retomada de minha carreira artística. Até que no ano de 2004, me mudei para Paraty e abri um atelier, no qual pinto diariamente até hoje.

Como surgiu a ideia para "Céu de Querubins"? E como chegou até a ideia da lona de caminhão? Há anos pinto sobre lonas de caminhão, usadas. Sou fascinado por histórias, e encontrei na lona um suporte carregado de tudo aquilo que acontece nas estradas. Cada marca, cada ponto de sujeira e cada remendo contam algo pra mim. Tudo isso me levou a pintar exclusivamente sobre lona, que, além do mais, ainda é visualmente linda. Isso começou a despertar em mim a vontade de viver uma história de caminhoneiro. Eu queria um dia seguir um caminhão e presenciar tudo que ele vivesse nas estradas. Me dei conta que a melhor maneira de fazer isso seria pintando uma lona inteira e cobrindo a carga de um caminhão real. Assim, eu e minha obra pegaríamos estrada Brasil afora. Mas ainda faltava a motivação pra tirar a ideia do papel. Até que meu filho, Daniel, veio trabalhar comigo e se encantou com a ideia. Nos unimos ao fotógrafo e documentarista Gustavo Massola e decidimos que dessa ideia sairia um filme. Encontramos um caminhoneiro que há anos faz o comercio de potes de barro entre o sertão e o sudeste brasileiro. Eles vivenciam diariamente a rotina das ceramistas da Bahia e passam por outras regiões incríveis do país, trocando e vendendo esses potes, que são usados para armazenar água. O roteiro do filme estava pronto. Faltava apenas eu pintar a lona e cobrir o caminhão. E assim foi. Nosso filme, é, na verdade, o registro de uma história vivida nas estradas brasileiras com uma pitada de arte.


Nesse projeto o que te toca mais como artista e como pessoa? Como artista, o projeto aumentou ainda mais minha crença na arte. A crença de que ela tem um poder sobre nós, e que ela escolhe nosso caminho. Costumo dizer para as pessoas que a arte se assemelha ao amor. Acho que toda criação da humanidade tem o amor como combustível, e junto com isso vem a beleza e a arte. Como artista, percebi que a arte se manifestou para que esse projeto acontecesse. Isso mexe comigo.  Saber que a arte tomou conta me deixa tranquilo, e quando estou tranqüilo, as coisas acontecem. Toda vez que assisto ao filme, que vejo a lona pronta, me emociono profundamente. Percebo que pra isso acontecer eu não precisei fazer nada, somente obedecer. Obedecer ao movimento da arte. Como pessoa eu me sinto orgulhoso, me sinto feliz. Olho e me espanto. Meu olhar também é de espectador. Eu consigo olhar de duas formas pra esse projeto. Como artista e como espectador.

O efeito modificador na vida daquelas pessoas simples do sertão te inspira de que forma? Isso é um acréscimo. É mais uma experiência que está guardada dentro de mim, e a qualquer momento, ela pode brotar e ser transformada em outra coisa. É assim que eu olho para essas pessoas. Uma lição de vida que está guardada dentro de mim, e que uma hora ou outra eu preciso buscar no meu “baú” e fazer ela ressurgir na minha vida em forma de histórias, de arte, de experiência.

O curta produzido por vocês foi indicado e ganhou prêmio. Vocês esperavam essa repercussão e reconhecimento todo? Como foi isso para vocês? Fizemos tudo com o maior carinho do mundo, sem muita definição do que poderia acontecer. Quando decidimos fazer um filme tínhamos certeza que iríamos mergulhar de cabeça para fazer algo realmente especial para todos nós. Eu sabia que seria algo bacana, mas não vislumbrava prêmios ou coisa parecida. Pensei que seria apenas uma obra a mais na minha carreira. Dois momentos me marcaram bastante em relação ao filme. O primeiro, foi quando ganhamos o primeiro prêmio. Meu filho me ligou falando que tínhamos sido selecionados para o Festival de Cinema de Santa Monica eu comecei chorar. Isso já era muito pra nós. Então, dias depois, quando veio a notícia que também havíamos sido premiados como melhor filme desse festival eu desmoronei, e até hoje eu carrego a lembrança daquele momento comigo. Outro fato marcante, foi assistir ao filme no festival de cinema de Paraty. Nesse dia muitos dos meus amigos estavam lá. Pessoas que acompanharam meu trabalho desde o início. Quando o filme acabou e eu vi aquelas pessoas aplaudindo em pé, algumas chorando, tive a certeza que o “Céu de querubins” já era um marco na minha vida. 



Com mais de 20 exposições entre a América do Sul, Norte e outros continentes, você se sente realizado ou realizando? Onde quer chegar mais? Essa é uma pergunta que eu gostaria que alguém me perguntasse. Tem alguma coisa muito estranha acontecendo dentro de mim. Parece que a minha alma pede algo novo. Eu estou procurando enxergar minha vida, ficar mais atento aos sinais. Me sinto realizado por tudo que fiz e por tudo que já me aconteceu até hoje, mas não gostaria que fosse só isso. Porque se eu partisse hoje, eu sentiria que não cumpri minha missão. Esse é meu grande medo. Não tenho a ambição de chegar em lugar nenhum, só quero continuar. Apenas cultivando e colocando pra fora aquilo que precisa ser colocado. 

O que te inspira? E quem te inspira? Eu sou como uma esponja. Tudo aquilo que me agrada, eu absorvo e coloco em minha vida: luzes, cores, movimentos, sons. A vida me inspira. O caminhar me inspira, o nascer do sol me inspira, o café da manhã me inspira. Tudo isso me faz refletir e me mostra caminhos. Em relação a artistas, muitos deles me inspiram. Desde os clássicos aos contemporâneos. Talvez a obra de Picasso seja a que mais me ensina, principalmente pela liberdade com que trilhou seu caminho na arte. Se a obra de um artista mexe comigo, acredito que, inconscientemente, ela acabe influenciando meu trabalho. Continuo seguindo minha linha e meu traço, mas tenho certeza que as pequenas mudanças que ocorrem em minha obra, com o passar do tempo, são reflexos do que absorvo do mundo, tanto na arte quanto fora dela.


Que dica você daria para quem vive esse universo da arte ou pretende mergulhar de cabeça na arte? Em primeiro lugar, é preciso acreditar que a arte é maior que o artista. Ela tem que ser maior que o próprio artista. Se você se sujeita a ela, ela cresce em você. Esse é meu primeiro conselho. Também acho que não é preciso buscar a polêmica, artifício que muitos artista usam para ficar em evidência. É preciso buscar a sutileza. Na sutileza, a arte fala sempre mais alto. De maneira prática, também é importante estar em um lugar onde o artista possa ser visto. A arte precisa ser democrática e as pessoas tem que ver o que o artista está fazendo. E o último conselho, é que o artista mergulhe na arte de cabeça. E pra isso, é preciso coragem! 

Depois dos Querubins qual sua próxima parada? Meu coração e minha alma não têm paradas. Escrevi alguns contos e, apesar de não ser escritor e não ter a literatura em minhas mãos, gostaria de dar vida a essas histórias de alguma maneira, através de exposições ou até filmes. Será que um dia vou acabar parando e fazendo um pouco mais de cinema? Não sei. A única certeza que tenho é que não posso parar. Não posso parar de pensar, nem de sonhar. Cada dia minha alma pede mais. Estou com quase 60 anos e fico pensando: “Meu deus, e se eu morrer aos 70?”. Dez anos não seria suficiente pra fazer tudo que eu quero. Mas é assim, não mandamos no futuro. Não temos domínio sobre o nosso sopro de vida. 

Assista o documentário "Céu de Querubins":


PARA SABER MAIS: www.aeciosarti.com
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